A PRAÇA DE 1945

A PRAÇA DE 1945
A Praça.

Hoje eu acordei com saudade de você
Beijei aquela foto que você me ofertou
Sentei naquele banco da pracinha só porque
Foi lá que começou o nosso amor.
Chico Buarque



A Incrível História de Uma Praça



As fotos de época pertencem ao acervo de Irene Sanchez Vedovello e as atuais são do acervo de José Carlos Alves de Souza.

Como é do conhecimento geral, em 1909 a Estrada de Ferro Sorocabana construiu em terras distantes do Distrito de Irapé, uma estação que foi denominada Chavantes.
Logo em seguida, casas residenciais e comerciais começaram a ser construídas e um pequeno vilarejo surgiu, recebendo o mesmo nome da estação. Era a nossa futura cidade de Chavantes.
Devemos à EFS o surgimento do município, mas durante muitos anos a sua participação ficou restrita a construção do belo prédio da estação, algumas casas simples para seus funcionários e armazéns para depósito de produtos.
No local, ou seja, em frente a Estação a cidade cresceu e belos prédios foram construídos. Inclusive era uma região nobre, onde funcionava o cinema, maior fonte de diversão da população. Ali ficavam, o hotel Grillo considerado um dos melhores da região, o bar dos Bandeirantes, com sua excelente culinária e frequentes reuniões sociais e políticas, o famoso cine Gigi, depois Bandeirante de finalmente São José, o belo prédio da sede social da Associação Atlética, fonte de importantes acontecimentos históricos.
Mas a população enfrentava um sério problema: os terrenos laterais da estação, de propriedade da EFS, estavam tomados pelo mato, leiteiras que são plantas tóxicas e ainda por cima cercados por mourões de trilhos e arames farpados. Cabras, muitas cabras, pastavam tranquilamente pelo lugar cercado, cartão de visitas para quem chegasse ao município pelas linhas da ferrovia.
Era o início dos anos de 1940.
Chavantes já era município desde o ano de 1922. A população pedia a melhoria da região chamada jocosamente de “Invernadinha da Sorocabana”, mas nada acontecia. Somente o mato e a quantidade de cabras continuavam aumentando.
O jornal O Município fez longas e excelentes matérias sobre a invernadinha. O assunto era discutido em todos os bares, em todas as famílias, interventores e prefeitos prometeram uma solução, mas nada aconteceu.
Você poderá ler algumas matérias publicadas no jornal, que mostram a preocupação e o apelo constante da população que queria a doação do espaço para uma praça pequena, enquanto os proprietários da Estrada de Ferro teimavam em não ceder, pois queriam construir casas no local (que por sinal, nunca vieram).

Ao fundo, o prédio da Estação

As leiteiras

(Digitalizado como publicado no Jornal O Município arquivado no Museu Municipal – ortografia da época)

Melhoramento Necessario
17 de fevereiro de 1945

“Existe ao lado do importante edificio da Estação local da Estrada de Ferro Sorocabana, um pedaço de terreno cercado de arame farpado coberto de leiteiras, terreno esse localizado bem no centro de Chavantes. De aspecto bastante feio, aquele logradouro que atualmente serve de pasto para cabras, com um pouco de boa vontade dos dignissimos diretores da poderosa via ferrea e dos representantes do nosso municipio, poderia tornar-se em um pequeno e bem iluminado jardim, o que daria à nossa cidade um aspecto atraente e digno de ser admirado por todas as pessoas que aqui transitam. Chavantes, que sempre foi e continua sendo um grande celeiro da Nação e do Estado de São Paulo, contribui com elevada soma para os cofres da Estrada de Ferro Sorocabana, e por isso não seria exagerado pedirmos o que lhe é de justiça, o melhoramento a que faz jùz”.

O Pasto da Sorocabana
Março de 1945
“No numero 715 deste jornal, demos a sugestão aos dirigentes da Estrada de Ferro Sorocabana, no sentido de fazer uma limpeza no cercado que aquela ferrovia tem ao lado do predio de sua Estação, afim de que o local referido não sirva mais de pastos para cabras e nem de incremento de fócos de pernilongos.
Até agora nenhuma solução foi tomada. Não sabemos porque. Ignoramos o  motivo dessa má vontade para com nossa terra, tratando-se de uma lembrança razoavel e cujo trabalho ficaria de custo muito infimo. Consta que o citado terreno está reservado para a construção de predios para os funcionarios da estrada, e isso não deixa de ser uma medida bem louvavel, mas o fato principal é que a pacata população de Chavantes não poderá por mais tempo tolerar, no coração de sua cidade, um pasto cercado de arame farpado coberto de uma planta nociva e perigosa. Que dê então, a Sorocabana, outro aspecto àquele local até ser iniciada a construção dos predios de seus funcionarios, o que se dará não sabemos quando”.


Os trilhos e o arame farpado. 
A cerca vinha até a frente da casa do Dorighello

Ainda visíveis os trilhos e o arame farpado

Ainda podemos encontrar os antigos trilhos. O arame farpado foi trocado por tela
mas em alguns trechos, aparece.


Um Grande Mal-Estar
1945
“Um grande mal-estar, certamente sentirá o governador do estado quando visitar Chavantes. Encontrará ele muita cousa em solução de adiantamento do Município, mas, ao dar com a Estação da Sorocabana, naturalmente há de combalir-se e arrepender-se de governar o líder Estado da Federação...
Sim, porque a arapuca à guisa de “gare” que temos e que é o maior pesadello dos viajantes e a mais infima impressão oferece a quem nos visita, contrasta com tudo que harmonize com os factores de um soffrível progresso.
Quem sabe? S.excia. com a constatação de tão feio e incommodo proprio que tambem é do Estado, não nos ampare com o seu desvellado afan reparador de inconveniencias publicas, mandando a Directoria da EFS reparar esse mal?...Quem sabe?...
Que os anjos digam amem”.



É óbvio que alguma coisa aconteceria!
 E a População se Rebela
 No dia 23 de agosto de 1945, às 22 horas aproximadamente, mais de 100 pessoas da cidade, de todas as classes sociais, indignadas com a displicência da Diretoria da Estrada de Ferro Sorocabana para com a nossa cidade, em não atender vários e importantes pedidos formulados por intermédio da Prefeitura, da população e da imprensa, desde vários anos, resolveram fazer uma limpeza no terreno cercado, sujo e bastante feio. A força da indignação fez com que as cercas fossem arrancadas, visto que o desejo era transformar aquele local, ora um pasto no centro de Chavantes, em uma praça com o nome de “Praça dos Expedicionários”, uma justa homenagem aos brasileiros e chavantenses que lutaram na Segunda Guerra Mundial.
Além de arrancarem as cercas e o arame farpado, ainda colocaram fogo no mato.
Foi um verdadeiro acontecimento na época. E um Deus nos acuda.
O delegado de Polícia de Chavantes, Dr Heitor de Araujo indignado, tomou todas as providências a respeito, mandando prender alguns membros da “rebelião” tendo mesmo instaurado um inquérito para apurar responsabilidades.
A Presidente do núcleo local da legião Brasileira de Assistência e outras organizações municipais, enviaram ao Sr. Dr. Interventor Federal e ao Exmo. Sr. Secretário da Segurança Pública, telegramas explicando o acontecido e pedindo o cancelamento do inquérito o que acabou ocorrendo tempos depois.
Veja um dos telegramas enviados:



A Praça foi finalmente construída?
Que nada!
Os pedidos continuaram e as reclamações também.

Praça dos Expedicionários
Novembro de 1945
“Soubemos de fonte fidedigna que o sr. Francisco Pereira Leite e Silva, abastado fazendeiro deste municipio e dignissimo Presidente do Diretorio local do Partido Social Democratico, acaba de conseguir do sr. Secretario da Viação e Obras Publicas do Estado de São Paulo, autorização para o ajardinamento do terreno localizado bem no centro de nossa cidade, cercado de arame farpado coberto de uma planta caustica e nociva, e que a Estrada de Ferro Sorocabana, com excessivo menosprezo mantem, prevalecendo da bondade do pacato e ordeiro povo de Chavantes.
Essa grande conquista do ilustre cavalheiro sr. Francisco Pereira Leite e Silva, vem encher de satisfação todos que aqui residem, pois coincide com a velha aspiração deste povo”. (...)

Mais Uma “Invernadinha”
Março de 1946
“Li neste jornal sábado passado um anuncio, no qual o sr. “Marmiteiro” oferece-se para alugar a “invernadinha” que existe em frente ao cinema local. Quer o pretenso locatario fazer criação de cabras, as quais andam soltas por ai, e que, para isso tenciona compra-las oferecendo ainda vantagem ao proprietario da referida “invernadinha”, se embeleza-la”.
(...)


Praça dos Expedicionários
 28/06/1947
“O sr. Mario Araújo, conseguiu mais uma vitória com o que procura dotar Chavantes de melhoramentos.  
Conseguiu que a Estrada de ferro Sorocabana cedesse a faixa de terra fronteira ao cinema local para construção da Praça dos Expedicionários, justo anseio da população e também uma homenagem aos gloriosos soldados que nos campos da Europa defenderam os ideais democráticos e a liberdade.
Entretanto, quem vê o anteprojeto da futura Praça exposto num dos bares da cidade, verificará que o citado anteprojeto prevê o prolongamento da rua Senador Mello Peixoto até o Pátio da Estação local.
Em tais condições, se executado o referido projeto, a Praça dos Expedicionários se reduzirá a uma exígua faixa de terra e passará à Praça apenas por Decreto Lei que, naturalmente, a Prefeitura expedirá como em administração anterior já se erigiu uma Praça da bandeira”, conhecida apenas dos que leram a publicação da Prefeitura Municipal e ainda lembram-se disso, pois, a referida Praça da Bandeira não passa de uma minúscula porção de terra no vértice do triângulo formado pelas ruas Senador Mello Peixoto e Siqueira Campos”.

O Nosso último comentário sobre a Praça dos Expedicionários e o sr. Prefeito 
12/07/1947
“O sr. Mario R. Araujo, digno Prefeito Municipal, abordou o assunto sobre o anteprojeto “Praça dos Expedicionários”. Disse que seria melhor para a comunidade se os nossos comentários fossem seguidos de uma planta de como julgaríamos melhor fosse construída a citada Praça.
Seria absolutamente impossível graças às dificuldades para se manter um jornal em pequena cidade, publicar com os nossos comentários uma planta que a nosso ver deveria ser construída a Praça.
Entretanto, teríamos o maior prazer em conseguir alguns anteprojetos dentre os quais se poderá escolher aquele que melhor se prestar para oferecer aos chavantenses e dos que por aqui passarem, uma Praça que seja a expressão da homenagem justa desta população laboriosa aos valorosos soldados”.

Chavantes está de parabéns!
Dezembro de 1945
“Estiveram em dias desta semana, afim de examinarem os melhoramentos necessarios  para o embelezamento do pateo da Estação local e logradouros pertencentes aquela Estrada, o sr. Dr. Thomè Passos, engenheiro da poderosa ferrovia, e Dr. Alvaro Guimarães, engenheiro construtor do 5º distrito. Tecepcoonaram os ilustres hospedes, além do sr. Prefeito Municipal, outras autoridades e elementos destacados na politica de Chavantes e do Estado. Após examinarem “in loco” os respectivos trechos, os representantes do digníssimo diretor da EFS, adiantaram que dentro de breves dias a nossa cidade contarà com os vários melhoramentos a que faz jús, inclusive o ajardinamento do local onde estão plantadas as leiteiras.
Com essa alviçareira noticia está de parabens a distinta população de Chavantes, assim como os nossos digníssimos dirigentes, que encontraram no ilustre diretor da Sorocabana, sr. Dr. Ruy Costa Rodrigues, um grande amigo de nossa cidade”.

Dr. Ruy Costa Rodrigues que demorou anos
para fazer a doação do terreno

A Praça dos Expedicionários
“Felizmente, graças aos esforços de nossa administração, o pátio da estação da Estrada de Ferro Sorocabana deixou de ser aquele pasto imundo, verdadeiro fóco de pernilongos, para transformar-se numa praça ajardinada que receberá, conforme é desejo de todos, o nome de “Praça dos Expedicionarios”.
O Sr. Mario R. Araujo, prefeito municipal, fez em dias desta semana, iniciar os trabalhos naquele local, de acordo com o diretor daquela poderosa via férrea. Inumeros trabalhadores foram cedidos á nossa Prefeitura pela Fazenda santa Rosa, deste município, que puzeram por terra, sob grande regosijo popular e estrondo de foguetes, as causticantes leiteiras que humilharam durante dilatado tempo a pacata e pacenciosa população chavantense.
Essa grande conquista do novo prefeito de Chavantes vem encher de satisfação todos que aqui residem, pois coincide com a velha aspiração deste povo, que foi forçado, num momento de indignação, desencadear um movimento de repulsa na noite de 23 de agosto de 1945”.

E agora? A Praça sai?

Finalmente, em 1953 após anos de intensas campanhas e inúmeras promessas, a Praça dos Expedicionários foi inaugurada durante a 1ª administração de Toninho Fontes. Seu projeto foi feito pelo arquiteto chavantense Adolpho Rúbio Morales.


A criança que brinca entre as margaridas é Lucia Helena Vedovello


A criança que brinca entre as margaridas é Lucia Helena Vedovello


A Praça dos Expedicionários, projeto do arquiteto Adolpho Rubio Morales


 Hoje, em razoável estado de conservação e um pouco suja, ela não é mais um ponto de encontro de famílias, amigos e namorados. Com o fechamento do Cine São José, toda a região entrou em declínio. Os prédios que foram o orgulho da comunidade encontram-se em estado lastimável.



Outros tempos, outras necessidades da população que, muitas vezes volta as costas para locais que, restaurados, poderiam sim transformar-se em ponto de encontro de jovens e idosos, com projeção de filmes, exposições de artes e os famosos campeonatos escolares de música e dança.
Quem sabe?
Ainda nos é permitido sonhar!

 A Praça hoje          



                         
                     
                         




                      
A população sempre manifestou preocupação com a praça, pedindo que ela seja revitalizada. Infelizmente atos de vandalismo ocorrem em toda a cidade, inclusive na praça que, em 1945 mobilizou toda a população para a sua construção. É uma história interessante que você poderá conhecer melhor, visitando o Museu Municipal.

5 comentários:

Lilia disse...

Cmentário de Luiz Antonio Vita
A praça até que me parece bastante agradável. Só não me conformo em saber que não é mais o ponto de encontro dos jovens. Então, é uma praça bonita, mas sem a alegria de outras épocas.

Lilia disse...

Comentário de Inah De Campos José
O importante também seria o jardim da Igreja, está precisando c/ urgência antes que acabe.

Lilia disse...

Comentário de Doraci Biggi
muito bom,valeu rever a história da nossa praç

Anônimo disse...

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Lilia disse...

Thanks!